O trabalho é um ambiente essencialmente humano (ao menos deveria). É na soma de pessoas diferentes que encontramos riqueza e força para realizações espetaculares. Mas é também na soma de pessoas diferentes que encontramos uma dificuldade essencialmente humana, a convivência. Somos animais sociais, precisamos um do outro para viver, mas ainda assim relacionamentos estão no topo dos nossos dilemas. O trabalho não foge à regra.

Não à toa, o desenvolvimento de uma equipe é questão fundamental para a performance de uma organização. A diferença entre um time, um agrupamento e um bando marcam também a diferença entre o clima e especialmente os resultados alcançados entre uma empresa e outra. É sonho de qualquer gestor (ao menos deveria) a construção de uma equipe diversa, harmônica e capaz de jogar junto. Como diz o velho mantra mosqueteiro, “um por todos, todos por um”.

Este desenvolvimento sonhado, na prática, transforma-se em imenso desafio. Gestores, BPs, consultores externos e uma porção de gente trabalha duro para esta lapidação. Entre conceitos que vão do líder coach à aplicativos de estimulo a gratidão, uma velha prática mantém-se viva (ok, muitas vezes como uma morta-viva): o tal do Team Building.

Sou fundador de uma consultoria que trabalha com gestão de pessoas e tenho uma porção de amigos inseridos no meio corporativo. “Uma ação de Team Building” é pedido frequente na minha caixa de entrada. Frequentes também são os relatos e comentários destes amigos toda vez que saem de uma ação como esta ou estão prestes a entrar.

O Team Building, que deveria ser sinônimo de momento importante de uma equipe, para muita gente é sinônimo de acantonamento, gincana e outras ideias desconexas com a realidade. Descer o rio de canoa, atravessar um lamaçal só com o pescoço de fora (juro que isso é real), subir em árvore, descer de árvore, simular lutas medievais (vi com meus próprios olhos e sobrevivi aos ataques dos inimigos) são algumas das práticas que acontecem por aí e que, não raro, despertam 2 sentimentos no time: uma interrogação (o que estamos fazendo aqui?) e um certo constrangimento (fica feio não participar). Algumas vezes, estas ações acabam até sendo divertidas. Mas qual é o resultado prático? E uma pergunta principal: se tivesse escolha, o time estaria ali? Arrisco dizer que muitas vezes não. E mesmo quando a resposta é “sim”, em parte não seria pela lógica de construção, mas pela quebra de rotina ou até por um certo período de férias. O hotel é legal, a comida é boa. Por que não?

Por muito do que fora citado acima, as ações de Team Building são vistas como um demodé na gestão de pessoas e condenadas ao fim. Eu sou mais radical e proclamo: morte já! E em seguida recupero o fôlego e grito: viva já! Como é comum na vida, algumas coisas precisam acabar para depois recomeçar. O Team Building certamente é uma delas.

Já passou da hora de enterrarmos algumas velhas práticas e os encontros que cumprem tabela. É tempo de renascimento, de novas ideias e principalmente de encontros que sejam focados de fato no indivíduo e nas equipes. Team Building é ação de desenvolvimento. O entretenimento e o lúdico até tem seu lugar, como linguagem ou sensibilização, mas não podem tirar o foco de um aspecto mais prático: é tudo sobre porquê e como trabalhar junto. É sobre alinhar nortes, promover conexão, desenvolver e complementar habilidades.

Já passou da hora do sepultamento do Team Building genérico, da ação A, B ou C que funciona para qualquer empresa. É tempo do renascimento da abordagem customizada, do respeito à complexidade do indivíduo e da construção em torno de uma cultura. Um Team Building nunca foi sobre canoas e lama, se for assim, que não seja. Agora se for sobre pessoas, que viva e prospere como um dos desafios mais bonitos e de maior recompensa que um gestor pode ter.

O Team Building que viverá é aquele que não é tratado como ação, mas como construção. Aquele que não é fim, mas meio.
Morte e vida ao Team Building.