O futuro é assunto presente no dia a dia das empresas. Há uma preocupação enorme, o que gera movimentos de reflexão, compreensão e construção. Empresas e pessoas preparam-se para novas realidades. Nós mesmos, aqui na Humans at Work, estamos com alguns projetos em andamento com este caráter. Entender, projetar e criar um novo tempo é questão estratégica e até de sobrevivência para um mundo que muda rápido. Mas também pode ser modismo.
O desejo de transformação é uma característica que admiro muito em um indivíduo ou em uma organização, desde que haja uma visão de destino para mudança e motivação clara. A transformação pela transformação é vaga, mas ela existe. Os termos e características do “futuro” entraram nas salas de reuniões e rodas de conversa. Executivos e executivas fizeram cursos online, participaram de expedições ao Vale do Silício, visitaram espaços de Coworking e decidiram transformar. Termos transformam-se em mantras. É pulsante a sede por futuro e inovação.
De repente, tudo que é feito não serve mais. É preciso mudar. E aqui é que as coisas se dividem. Por vezes, a mudança é benéfica e real. Transforma processos, melhora o trabalho, humaniza relações, apresenta ganhos em velocidade, liberdade, criatividade e resultados. Por vezes, a mudança é pura perfumaria. O escritório vira coworking, nenhum colaborador tem posição fixa. Mas que não ouse não bater o ponto às 08:48. Criam-se reuniões colaborativas, onde o chefe fala e a equipe segue com atenção. Ideias são bem-vindas e estimuladas através de um workshop de inovação, desde que aprovadas pelas 12 camadas de decisão. Em muitos lugares, o futuro ainda é vaidade, fantasia. “Colabora-se” sem confiança. “Inova-se” sem autonomia.
Há também casos em que a intenção é genuína, mas a execução um desastre. Não se muda uma organização e uma cultura do dia para a noite. A empresa centenária precisa agora agir como uma startup. O choque é inevitável, talvez mais inevitável seja o fracasso da ideia. Obviamente haverá resistência, desalinhamento. Não raro, ideia e prática passam a ser cada vez mais distantes. O discurso é um, a rotina é outra. E a culpa é do time que não tem o “mindset” adequeado.
Ainda há um outro cenário comum, o da empresa que debate assiduamente o futuro, enquanto sangra no presente. Prega agilidade e o fim do “mimimi”, enquanto disparam os casos de problemas com saúde mental. O presente e o futuro, como coisas desconexas, enlouquecem a qualquer um. É preciso pensar em ponto de chegada, mas com consciência de que há uma partida.
Falar sobre futuro pode ser um belo exercício. É projeção e preparo para direcionar nossa jornada. Mas faz pouco sentido sem o entendimento de que o único caminho viável para ele é o presente. É preciso visitar o diferente e conhecer maneiras novas de se fazer as coisas, mas sem esquecer de um olhar carinhoso para as atuais. Nem toda inovação é disruptiva. Antes de ser termo em moda, ela era apenas uma possibilidade dentro de uma teoria.
Faz sentido falar sobre futuro, se o presente não for esquecido. Se a construção for legítima, se a cultura for considerada.
O futuro do trabalho e das empresas será formado menos por termos e eventos, mais por comportamento e construção de rotina.
Tudo começa em olhar para frente sob a nossa ótica, não sob a de uma startup de outro continente, e na definição do primeiro passo para começar.
Na minha opinião, sempre será pelas pessoas. Vislumbro o caminho a ser percorrido pela empresa, mas também a trajetória de cada indivíduo. Quais comportamentos precisaremos cultivar? É preciso transformar de verdade. E com verdade.
Com essa compreensão, faz sentido falar sobre o assunto. Concorda?
Caso não seja assim, confesso que tenho preferido falar sobre o tempo. Não tenho paciência para modismos. Os dias estão bonitos esta semana, não acha?
Guilherme Krauss é fundador da Humans at Work, co-fundador da A Grande Escola, pesquisador e autor de 2 livros – “Vida Produtiva” (2017) e “Toda Segunda é um Pequeno Réveillon” (2018).