Felicidade e Governança Corporativa parecem duas palavras que caminham distantes. Uma é alegre, desejada, um tanto intangível e geralmente relacionada aos melhores momentos de um indivíduo. A outra tem temperatura regulada pelo ar condicionado, pede certa formalidade e se apresenta potencialmente complexa por nascença. Uma é condição para uma vida boa. A outra essência de uma empresa sólida. Tão distantes que poderíamos tratá-las como antípodas, certo? Bem, na minha opinião, elas nunca estiveram tão próximas.

Se a Governança é quem organiza a forma como a empresa é gerida e avaliada, não há posição melhor para a Felicidade do que dentro deste conjunto. É uma relação de valor mútuo e que, por mais esquisito que pareça, tem tudo para dar certo. Eu explico.

Em geral, quando olhamos para Governança, logo pensamos em processos, códigos e regulamentos. Coisas que só existem por um único motivo: o sucesso da empresa, certo? Não! O início e destino de um trabalho como este vai além, passa principalmente pela existência de seres humanos naquela organização e no mundo. Governança é um trabalho humano.

É clichê falar, mas vale o reforço: empresas são feitas de, por e para pessoas. E o próprio produto de um bom trabalho de Governança só é eficaz porque tem pessoas que acreditam e vivem os códigos como verdade. Todo sistema empresarial é fruto da nossa boa fé.

Se os seres humanos são tão importantes para empresa, é fundamental que a empresa também considere o que é importante para estes seres humanos. Poderíamos eleger uma série de coisas, mas algo é comum a todos os representantes da espécie: o desejo por felicidade e a fuga do sofrimento. Aristóteles dizia que a felicidade faz parte da nossa natureza. Pergunto a você que lê este artigo: deseja uma vida infeliz? Já posso imaginar a resposta.

Sendo os seres humanos tão essenciais para a empresa e a felicidade tão valorizada pelos seres humanos, não fica difícil pensar que estes dois lados podem apresentar uma relação. Algo que fica explícito na frase a seguir: gente feliz trabalha melhor. Duvida? Bom, lembre de dias da sua própria carreira profissional, de momentos felizes e infelizes, agora lembre de como foi sua postura e performance no trabalho. Fez sentido?

Para reforçar a a tese, além das suas memórias, utilizarei também dados científicos. O campo da Psicologia Positiva têm nos permitido olhar a Felicidade sob a ótica acadêmica e isso tem trazido revelações importantes. Gente feliz trabalha melhor e é 31% mais produtiva*, 300% mais criativa* e tem 40% mais chances de promoção**. Além disso, são diminuídas radicalmente as chances de afastamento por stress*, um dos grandes vilões no distanciamento dos seus colaboradores dos postos de trabalho. Para quem olha para a linha do faturamento, aqui vai mais um dado, o colaborador feliz apresenta até 37% a mais de performance em vendas*. Olhando bem estes números, penso que a felicidade não deva ser apenas um desejo do indivíduo, mas uma estratégia da empresa. Concorda?

Toda empresa tem grande influência nas emoções de um indivíduo, positivamente e negativamente. Se por um lado estudos mostram níveis de sucesso relacionados à felicidade como nos dados citados acima, por outro, uma pesquisa realizada no final de 2017*** aponta que mais de 50% dos brasileiros com carteira assinada estão insatisfeitos com seu trabalho e trocariam de emprego em busca de maior alegria. Todo bom gestor sabe, alta rotatividade é prejudicial à cultura e a qualidade. Sem contar no desafio de formação de novas lideranças, cada vez mais complexo em um tempo de tantas mudanças.

Por tudo citado acima, tenho convicção de que felicidade é assunto estratégico com grande potencial em resultados para uma organização. A empresa que se desenvolve e demonstra-se capaz de influenciar positivamente a felicidade de seus colaboradores, é empresa que terá bons resultados e altos níveis de retenção de talentos e engajamento, além de transformar-se também em posto de trabalho desejado para quem está no mercado.

Mas como desenvolver felicidade?

Sou autor de uma pesquisa que estabelece índices de felicidade em empresas de todo Brasil, a Humans Happiness Survey e com todo o aprendizado posso afirmar categoricamente: o segredo está na cultura. E o que forma a cultura? As próprias pessoas, claro, mas também o conjunto de processos, regras, prioridades e códigos da empresa. Algo que também podemos chamar de Governança.

A Governança Corporativa é o caminho mais frutífero para que a felicidade não seja trabalhada apenas a partir de gestos pontuais e lideranças inspiradoras e passe a fazer parte do coração estratégico da organização, capaz de se disseminar por regiões, gerações e mudanças de controle, contribuindo para elevados níveis de satisfação, formação de time talentoso e alcance dos melhores resultados.

Se a felicidade é estratégia para uma empresa bem-sucedida e a Governança a prática que cria as melhores condições para o alcance deste objetivo, cai por Terra aquela ideia de Antípodas apresentada no início do texto e revela-se uma proximidade e sintonia absurdas entre dois temas que precisam caminhar cada vez mais juntos.

 

Texto publicado em goneweconomy.com

*Meta-Análise de 225 estudos publicada pelos pesquisadores Sonja Lyubomirsky (University of California Riverside), Laura King (University of Missouri at Columbia) e Ed Diener (University of Illinois at Urbana-Champaign) em 01/2013. **Artigo de Shawn Achor (Harvard) publicado no Harvard Business Review em 2012.***pagePesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, citada em reportagem do G1 em 11/12/2017

 

Guilherme Krauss é fundador da Humans at Work, Co-Fundador da A Grande Escola, Professor, Autor de 2 livros e Idealizador da Humans Happiness Survey – pesquisa que estabelece índices de felicidade em empresas de todo o Brasil.